Terra dos Sonhos: O Herói

      Nenhum comentário em Terra dos Sonhos: O Herói

Terra dos Sonhos - O Herói

Este é um conto trazido da Terra dos Sonhos. Nele, há um pai, a saudade sem fim do seu filho perdido, um fantasma e o Mestre dos Sonhos. E há também as coisas existem entre todos esses elementos.

O homem volta para casa. É um ato mecânico, uma rotina que ele cumpre sem nenhuma emoção todos os dias.
No caminho, há um parque. O homem olha para o parque e lembra tantos dias felizes naquele lugar…dias que não voltam mais…o parque agora é um local de tristeza para ele.
O homem então se detém por alguns minutos. Enquanto se perde em pensamentos, ele é tirado de suas lembranças pelo som do choro de uma criança.
Ele procura com os olhos e consegue localizar a fonte do choro; um menino sentado em um dos bancos do parque.
O homem olha em volta, para tentar localizar alguém que esteja procurando pela criança. Nada. Não havia ninguém por perto.
Devagar, ele se aproxima da criança. Aparenta ter entre seis á sete anos. Usava uma fantasia de zorro.
– Olá…- disse o homem. – Está perdido menino? – Com quem você está? Onde estão os seus pais?
Mas a criança continuava a chorar. Então ele perguntou:
– Qual é o seu nome?
– Eu sou um sonho… – respondeu o menino entre as lágrimas.
– Hã?- O homem riu. Achou graça na resposta da criança. – Como é que é? Você é o que?
– Eu sou um sonho… eu sou um sonho de uma criança que viveu e que sonhou como uma criança sonha.
– Venha – disse o homem. – Pare com isso. Vamos procurar pelos seus pais ou quem quer que o tenha trazido ao parque. Em algum lugar, deve haver alguém muito preocupado procurando por você.
– Não!- Gritou a criança, se levantando e se pondo á correr. – Você não entendeu nada… – Gritou chorando, enquanto corria entre as árvores do bosque que havia no parque.
O homem tentou em vão correr atrás do menino, mas ele era extremamente veloz. Por mais que tentasse se aproximar, não conseguia alcançá-lo.
E então o menino sumiu entre as árvores. O homem parou de correr. De repente, uma voz se fez ouvir, vindo da floresta á sua frente:
‘‘ – Você se esqueceu…” – A voz infantil parecia um lamento. – ”Esqueceu do sonho…”.
E de repente, tudo ficou quieto. O homem assustado, saiu correndo dali.
Chegando em casa, subiu as escadas e abriu a porta de um quarto que ele não ia há tempos.
Era o quarto do filho, que havia desaparecido naquele mesmo bosque em que estivera á pouco.
O quarto havia permanecido trancado, arrumado do mesmo jeito desde então. O homem nunca mais havia entrado no quarto do filho. Desta maneira, o homem pensou que podia afastar as lembranças… pensou que podia esconder a sua vergonha e a sua culpa, por que o homem sempre se culpou pelo desaparecimento do filho.
Então, quando ele entrou no quarto e viu tudo o que ele tentara em vão esquecer, ele chorou ao lembrar o que havia perdido.
O homem ficou transtornado. Começou a quebrar tudo. O armário, onde ainda estavam as roupas do menino; o imenso baú de brinquedos; a coleção de carros em miniatura de que o filho tanto gostava; jogou longe as gavetas da pequena escrivaninha onde o filho estudava e desenhava- outra das suas grandes paixões.
Foi quando um papel caído no chão chamou a sua atenção. Era um desenho do parque, que o filho adorava que ele o levasse para brincar.
No desenho, o menino estava vestido com uma fantasia de Zorro e segurava a mão do pai. No alto da folha, liam-se os seguintes dizeres: “Papai é o meu herói”.
O homem desabou, tal qual uma marionete que perdeu as cordas que o controlavam. Caiu no chão empoeirado aos prantos… tentou inutilmente não pensar em nada, em esquecer de tudo o que aconteceu e alimentar a esperança de que o filho ia a qualquer momento entrar por aquela porta e dizer que estava tudo bem… no fundo do seu coração, ele secretamente acalentava o desejo de reencontrar o filho querido.
Ele desapareceu no parque, enquanto brincava. Não acharam o corpo… não acharam nenhum vestígio… nada. Simplesmente desapareceu.
Isso era o que dava forças para que ele continuar a viver apesar de tudo… agarrar-se a mínima possibilidade de que seu filho ainda estivesse vivo. Isso o mantinha são. Isso lhe fazia todos os dias cumprir a mórbida rotina de passar pelo lugar onde perdera o que de mais precioso ele possuía.
No chão do quarto, todas as lembranças reprimidas há tanto tempo vieram à tona todas juntas e descontroladas.
A pressão foi demais para o pobre homem. Sozinho, no chão do quarto, entre os soluços e abraçado ao desenho do filho, ele adormece…

Ele acorda com a brisa suave no rosto… abre os olhos devagar. Demora alguns instantes para reconhecer onde está. Ele está no parque… sentado em um banco da praça.
“- Que sonho mais louco… devo ter sentado aqui e cochilado”.
Ficou sentado por alguns instantes, observando. As pessoas indo e vindo; as crianças brincando; os mais idosos alimentando pombos ou jogando os seus jogos… tudo tão normal…
No meio do movimento dos transeuntes, um homem veio caminhando em sua direção. Trazia pela mão uma criança.
Era um homem estranho… diferente, sua pele era pálida… as roupas eram negras… seus olhos eram como estrelas brilhando intensamente. Com ele, estava a criança. Usava uma fantasia de Zorro.
“- Oi!” – Disse o menino.
“- Oi!” – Disse o homem chorando.
“- Você esqueceu… você se esqueceu do nosso sonho…”.
“- Eu sei… agora eu sei… eu me esqueci…”.
Estavam agora frente a frente. Ele retirou a máscara da criança.
“- Meu filho… meu filhinho…” – Disse, abraçando e beijando o filho.
“- Oh, papai… eu senti tanta saudade…”.
“- Eu também…”-Disse olhando para o filho. Estava exatamente igual ao dia em que desaparecera.
Ficaram assim abraçados por um longo tempo… não havia o que falar.
O homem vestido de negro observava a tudo, impassível.
“- Papai… o senhor havia esquecido do nosso sonho… nele, o senhor é o meu herói… sempre foi… e eu me vesti como um herói pro senhor”.
“- Mas meu filho, onde você estava? O que houve? Como…”.
“- Shhh!!!” – O menino pôs a mão na boca do pai – “-Isso não importa mais… eu fiquei aqui… onde o nosso sonho vive… só que ele estava morrendo… desaparecendo. Eu não podia ser feliz com o senhor sofrendo desse jeito… é preciso que o senhor acredite no nosso sonho, papai… para que eu possa estar aqui… e então, no tempo certo, nós vamos nos reunir aqui neste lugar, onde tudo o que nós vivemos e sonhamos ainda existe…”.
O homem volta para casa. É um ato mecânico, uma rotina que ele cumpre sem nenhuma emoção todos os dias.
No caminho, há um parque. O homem olha para o parque e lembra tantos dias felizes naquele lugar…dias que não voltam mais…o parque agora é um local de tristeza para ele.
O homem então se detém por alguns minutos. Enquanto se perde em pensamentos, ele é tirado de suas lembranças pelo som do choro de uma criança.
Ele procura com os olhos e consegue localizar a fonte do choro; um menino sentado em um dos bancos do parque.
O homem olha em volta, para tentar localizar alguém que esteja procurando pela criança. Nada. Não havia ninguém por perto.
Devagar, ele se aproxima da criança. Aparenta ter entre seis á sete anos. Usava uma fantasia de zorro.
– Olá…- disse o homem. – Está perdido menino? – Com quem você está? Onde estão os seus pais?
Mas a criança continuava a chorar. Então ele perguntou:
– Qual é o seu nome?
– Eu sou um sonho… – respondeu o menino entre as lágrimas.
– Hã? – O homem riu. Achou graça na resposta da criança. – Como é que é? Você é o que?
– Eu sou um sonho… eu sou um sonho de uma criança que viveu e que sonhou como uma criança sonha.
– Venha – disse o homem. – Pare com isso. Vamos procurar pelos seus pais ou quem quer que o tenha trazido ao parque. Em algum lugar, deve haver alguém muito preocupado procurando por você.
– Não! – Gritou a criança, se levantando e se pondo á correr. – Você não entendeu nada… – Gritou chorando, enquanto corria entre as árvores do bosque que havia no parque.
O homem tentou em vão correr atrás do menino, mas ele era extremamente veloz. Por mais que tentasse se aproximar, não conseguia alcançá-lo.
E então o menino sumiu entre as árvores. O homem parou de correr. De repente, uma voz se fez ouvir, vindo da floresta á sua frente:
‘‘ – Você se esqueceu…” – A voz infantil parecia um lamento. – ”Esqueceu do sonho…”.
E de repente, tudo ficou quieto. O homem assustado, saiu correndo dali.
Chegando em casa, subiu as escadas e abriu a porta de um quarto que ele não ia há tempos.
Era o quarto do filho, que havia desaparecido naquele mesmo bosque em que estivera á pouco.
O quarto havia permanecido trancado, arrumado do mesmo jeito desde então. O homem nunca mais havia entrado no quarto do filho. Desta maneira, o homem pensou que podia afastar as lembranças… pensou que podia esconder a sua vergonha e a sua culpa, por que o homem sempre se culpou pelo desaparecimento do filho.
Então, quando ele entrou no quarto e viu tudo o que ele tentara em vão esquecer, ele chorou ao lembrar o que havia perdido.
O homem ficou transtornado. Começou a quebrar tudo. O armário, onde ainda estavam as roupas do menino; o imenso baú de brinquedos; a coleção de carros em miniatura de que o filho tanto gostava; jogou longe as gavetas da pequena escrivaninha onde o filho estudava e desenhava – outra das suas grandes paixões.
Foi quando um papel caído no chão chamou a sua atenção. Era um desenho do parque, que o filho adorava que ele o levasse para brincar.
No desenho, o menino estava vestido com uma fantasia de Zorro e segurava a mão do pai. No alto da folha, liam-se os seguintes dizeres: “Papai é o meu herói”.
O homem desabou, tal qual uma marionete que perdeu as cordas que o controlavam. Caiu no chão empoeirado aos prantos… tentou inutilmente não pensar em nada, em esquecer de tudo o que aconteceu e alimentar a esperança de que o filho ia a qualquer momento entrar por aquela porta e dizer que estava tudo bem… no fundo do seu coração, ele secretamente acalentava o desejo de reencontrar o filho querido.
Ele desapareceu no parque, enquanto brincava. Não acharam o corpo… não acharam nenhum vestígio… nada. Simplesmente desapareceu.
Isso era o que dava forças para que ele continuar a viver apesar de tudo… agarrar-se a mínima possibilidade de que seu filho ainda estivesse vivo. Isso o mantinha são. Isso lhe fazia todos os dias cumprir a mórbida rotina de passar pelo lugar onde perdera o que de mais precioso ele possuía.
No chão do quarto, todas as lembranças reprimidas há tanto tempo vieram à tona todas juntas e descontroladas.
A pressão foi demais para o pobre homem. Sozinho no chão do quarto, entre os soluços e abraçado ao desenho do filho, ele adormece…

Ele acorda com a brisa suave no rosto… abre os olhos devagar. Demora alguns instantes para reconhecer onde está. Ele está no parque… sentado em um banco da praça.
“- Que sonho mais louco… devo ter sentado aqui e cochilado”.
Ficou sentado por alguns instantes, observando. As pessoas indo e vindo; as crianças brincando; os mais idosos alimentando pombos ou jogando os seus jogos… tudo tão normal…
No meio do movimento dos transeuntes, um homem veio caminhando em sua direção. Trazia pela mão uma criança.
Era um homem estranho… diferente, sua pele era pálida… as roupas eram negras… seus olhos eram como estrelas brilhando intensamente. Com ele, estava a criança. Usava uma fantasia de Zorro.
“- Oi! ” – Disse o menino.
“- Oi! ” – Disse o homem chorando.
“- Você esqueceu… você se esqueceu do nosso sonho…”.
“- Eu sei… agora eu sei… eu me esqueci…”.
Estavam agora frente a frente. Ele retirou a máscara da criança.
“- Meu filho… meu filhinho…” – Disse, abraçando e beijando o filho.
“- Oh, papai… eu senti tanta saudade…”.
“- Eu também…”-Disse olhando para o filho. Estava exatamente igual ao dia em que desaparecera.
Ficaram assim abraçados por um longo tempo… não havia o que falar.
O homem vestido de negro observava a tudo, impassível.
“- Papai… o senhor havia esquecido do nosso sonho… nele, o senhor é o meu herói… sempre foi… e eu me vesti como um herói pro senhor”.
“- Mas meu filho, onde você estava? O que houve? Como…”.
“- Shhh!!!” -O menino pôs a mão na boca do pai – “-Isso não importa mais… eu fiquei aqui… onde o nosso sonho vive… só que ele estava morrendo… desaparecendo. Eu não podia ser feliz com o senhor sofrendo desse jeito… é preciso que o senhor acredite no nosso sonho, papai… para que eu possa estar aqui… e então, no tempo certo, nós vamos nos reunir aqui neste lugar, onde tudo o que nós vivemos e sonhamos ainda existe…”.
“- Meu filho… meu filhinho querido… eu te amo tanto…” – Chorava, abraçado ao filho.
“- Prometa papai… prometa que não vai se esquecer do nosso sonho…”.
“- Eu prometo, meu filho… eu prometo”. -Disse, beijando o filho, sentindo o cheiro da sua pele, saboreando o som da sua voz-tantos detalhes esquecidos, agora voltando.
“- Agora, eu tenho que ir papai…”.
“- Não… não vá meu filho… não me deixe sozinho…”-Disse abraçando o filho mais forte. “-Fica comigo, por favor…”.
“- Papai, meu paizinho, eu sempre vou estar com você… mas eu tenho que ir… o senhor ainda tem uma vida inteira pela frente… então viva papai… me deixe orgulhoso… seja o meu herói…”
“- Sim… eu tentarei”. – Disse, enquanto trazia o filho pro colo e o abraçava bem forte.
Então, ele afrouxou o abraço. Pôs cuidadosamente a criança no chão. Pai e filho se olharam uma vez mais… um beijo no rosto… uma despedida silenciosa… um olhar para eternidade.
E o menino se virou foi na direção da misteriosa figura.
O pai olhou para o estranho, e, se antes a sua expressão era de total apatia, agora aparentava uma profunda tristeza.
Deram-se as mãos e caminharam em direção ao bosque. O menino, uma vez mais se virou para o pai e disse:
“- Lembre-se…”.
“- Sempre…” – Respondeu o pai.
E desapareceram em meio às árvores.

Fim?

Prólogo:

Muito além do mundo desperto, encontra-se o Reino dos Sonhos.
Ao seu redor, há poeira infinita e escuridão sem-fim. E embora o Mundo dos Sonhos seja infinito, ela faz fronteira com todas as realidades que já existiram, existem ou irão existir.
Em algum lugar do Sonhar, encontram-se os portões de Chifres e Marfim.
Os Sonhos que passam através dos portões de Marfim, são mentiras, fraudes e ilusões. Desses sonhos, os sonhadores não se recordam ao despertar;
O outro portão, permite a passagem da verdade. Todos os sonhos enviados por ele são lembrados ao se despertar.
Nas fronteiras do Sonhar, o Rei-Sonho abre o portão de Chifres… de sua algibeira, ele conjura as areias do Sonhar, matéria prima de todo os Sonhos.
Ele deixa a areia escorrer lentamente de uma mão para a palma da outra aberta… e então, ele sopra… os grãos dourados atravessam as fronteiras entre os mundos.
“-Lembre-se…” – Sussurra o Rei-Sonho.
Ele fecha o portão e se dirige para o seu castelo, no coração do Sonhar.
Passando pelos portões de arquitetura Gótica guardados por um Grifo e um Dragão, ele atravessa as dependências do seu castelo, pensando nos eventos do dia.
Passando por uma sala de troféus e virando à esquerda da biblioteca que possui todos os livros já escritos no mundo desperto ou que apenas existiam nos Sonhos dos seus criadores, encontra-se uma sala que se ergue até aos céus, repletas de janelas. O Moldador-Mor se detém diante de uma das infinitas janelas do salão e observa uma criança fantasiada brincar, num parque cheio de vida.
E então, por alguns instantes, o Príncipe das Histórias se distrai dos seus afazeres e ensaia um tímido sorriso… e sente que no seu trabalho, ainda existem alguns momentos de compensação.

Fim… por enquanto.

Criado por Dreamaker
Em 09/12/2002
Editado e revisado
Em 27/10/2003

N.D.A.: Este texto faz parte de uma série chamada “Terra dos Sonhos“. Alguns desses textos são inspirados no universo e personagens de Sandman (criado por Neil Gaiman, Sam Kieth e Mike Dringenberg para o selo Vertigo – uma divisão da DC Comics) e também em coisas que chegam com os Sonhos ou inspiradas no tema “Sonho”.